O que faz um banco saudável quebrar?
Seu banco está bem: as contas fecham e os empréstimos estão sendo pagos. Aí você descobre que todo mundo está sacando. Você espera ou corre? Parece uma pergunta sobre coragem, mas é uma pergunta sobre conta.
20'00"
Toque no vídeo para assistir aqui mesmo.
O banco empresta a longo prazo e promete devolver o seu depósito na hora. Isso é útil, porque ninguém sabe quando vai precisar do dinheiro, mas só funciona se pouca gente cobrar ao mesmo tempo. Se todos acham que os outros vão sacar, sacar vira a decisão racional, e um banco saudável pode quebrar: é a corrida bancária. A garantia de depósitos remove o motivo de correr, mas cria incentivo ao risco, e por isso precisa de limite e regulação.
Onde está o seu dinheiro
Uma ideia comum é a de que o banco guarda o seu dinheiro. Se fosse só isso, seria um cofre caro, e a economia perderia boa parte do que um banco faz.
Quando você deposita, o banco guarda uma parte e empresta o resto: para quem compra uma casa, para a empresa que constrói uma fábrica. Esse dinheiro volta aos poucos, em anos. Mas você pode pedir o seu a qualquer momento.
Isso parece um defeito, mas é o serviço. Você não sabe se vai precisar do dinheiro no mês que vem. Sozinho, teria de escolher entre prender o dinheiro num investimento longo ou deixá-lo parado. O banco junta muita gente; nem todo mundo precisa do dinheiro ao mesmo tempo. Então dá para emprestar a maior parte e ainda atender quem precisa sacar. Na prática, o banco funciona como um seguro contra a surpresa de precisar do dinheiro antes da hora.
Essa mesma combinação, que torna o banco útil, também o torna frágil. Não são duas coisas diferentes. É a mesma.
O Banco Boa Fé
Para ver isso, um banco inventado. Os números são um exemplo nosso; a lógica vem de um estudo de 1983 de Douglas Diamond e Philip Dybvig.
100 clientes depositam R$ 100 cada. O banco tem R$ 10 mil e faz um investimento que, se chegar até o fim, paga 1,5 vez o que foi aplicado. Se precisar desfazer antes, recupera só o valor original.
Sem banco, quem precisasse do dinheiro antes pegaria R$ 100; quem esperasse, R$ 150. O Boa Fé oferece outra coisa: quem sacar antes recebe R$ 110. É o preço de ter uma rede de segurança.
Quem teve azar recebeu mais do que teria sozinho. Quem esperou abriu mão de um pouco. Todo mundo fez seguro.
Muda uma coisa só
Não muda o investimento nem o caixa. Muda o que você acha que os outros vão fazer. Você não precisa do dinheiro.
Nesse exemplo, o ponto de virada fica em cerca de 73 clientes. Se você acredita que mais gente do que isso vai sacar, a melhor decisão é sacar também, mesmo sem precisar. E, se todos correm, o dinheiro paga 90 clientes por inteiro; quase todos os outros ficam sem nada.
Ninguém enlouqueceu. Cada pessoa fez a conta certa, e o resultado foi péssimo para quase todo mundo.
A resposta do título
Um banco saudável pode quebrar porque a promessa de pagar na hora só funciona se pouca gente cobrar ao mesmo tempo. Basta todo mundo acreditar que ele vai quebrar para que precise vender tudo às pressas e quebre.
O que dispara essa crença? No estudo, pode ser um balanço ruim, a corrida em outro banco, uma previsão negativa do governo ou até manchas solares. Os autores escrevem isso para deixar claro que o gatilho não precisa ter nada a ver com a situação real do banco.
Um cuidado: isso é um modelo, feito para isolar um mecanismo. Ele prova que a corrida pode acontecer sem problema de origem; não diz que toda quebra é assim. Muitos bancos quebram porque realmente perderam dinheiro.
O exemplo mais famoso de suposta quebra por boato é o Bank of United States, em Nova York, em dezembro de 1930: a imprensa falou em boato, houve multidão na porta e o banco fechou. Mas os economistas divergem sobre se ele estava mesmo saudável. E uma revisão de 2026, de Correia, Luck e Verner, indica que corridas raramente derrubam bancos fortes: quase sempre há problemas de base.
Em 2022, Diamond e Dybvig dividiram o Nobel de economia com Ben Bernanke, por pesquisas sobre bancos e crises financeiras.
Quem corre primeiro
Pessoas de verdade se comportam assim? Garratt e Keister colocaram pessoas diante de um banco de laboratório, com dinheiro real em jogo. Quando se sabia quantas pessoas precisavam sacar, a corrida era rara. Quando havia incerteza sobre isso, ela ficava frequente. E, com mais oportunidades de saque, as pessoas sacavam mais. O problema não é só a notícia ruim: é não saber o que os outros vão fazer.
Fora do laboratório: Nova York, década de 1850. Um banco de poupança com muitos imigrantes irlandeses passou por duas corridas. Morgan Kelly e Cormac Ó Gráda usaram os registros para descobrir quem sacou. Tempo nos Estados Unidos e tempo de banco importaram, mas o fator mais importante foi o condado da Irlanda de onde a pessoa tinha vindo. Quem chegava morava perto de conhecidos da terra natal: a rede de contatos era, em boa parte, a terra de origem. O medo se espalha por quem você conhece.
Um século e meio depois, Rajkamal Iyer e Manju Puri analisaram, minuto a minuto, os saques de um banco que sofreu uma corrida. Quanto mais pessoas da rede do cliente corriam, maior a chance de ele correr. Quem tinha dinheiro acima do limite da garantia corria mais; a garantia ajudava, mas só em parte; e quem tinha relação mais longa com o banco corria menos. Mesmo num banco solvente, quem correu tendia a não voltar.
O estrago
A corrida destrói algo real. Quando o banco vende tudo às pressas, empréstimos e investimentos são interrompidos. No exemplo, o investimento que pagaria 1,5 vez termina valendo 1. Aquele ganho deixa de existir.
O caso clássico é a Grande Depressão. Entre 1930 e 1933, ondas de quebras de bancos atingiram os Estados Unidos, e a oferta de moeda caiu 28% entre 1929 e 1933. Em 1983, Ben Bernanke acrescentou uma peça: com bancos quebrando ou com medo de corridas, os canais de crédito foram rompidos. Conhecer quem pode pagar um empréstimo é um trabalho, e esse conhecimento não é refeito num dia.
Em março de 1933, o presidente Roosevelt decretou um feriado bancário. Em 1934 nasceu o primeiro sistema nacional de seguro de depósitos dos Estados Unidos.
A velocidade
O livro-texto de Mankiw chegou a dizer que, hoje, as pessoas só veem corridas aos bancos no cinema, lembrando como exceção o Northern Rock, no Reino Unido, em 2007, a primeira corrida britânica desde 1866. Mas Hyun Song Shin mostra que, no Northern Rock, o dano veio antes da fila: o banco dependia muito de empréstimos de curto prazo, e esse dinheiro secou semanas antes. A corrida nem sempre vem do cliente na fila; pode vir de grandes credores que deixam de renovar empréstimos.
Em 9 de março de 2023, mais de US$ 40 bilhões saíram do Silicon Valley Bank, que foi fechado no dia seguinte. Esse banco tinha problemas próprios; ele entra aqui pela velocidade. Um estudo de Cookson e coautores mostrou que, durante aquela corrida, bancos mais expostos ao Twitter perderam mais valor na bolsa, e as perdas foram maiores nas horas após postagens muito compartilhadas. Em 1850, a rede era a rua e o condado; em 2023, podia ser uma postagem compartilhada no mundo inteiro.
Como se protege um sistema feito de confiança
A primeira resposta é suspender os saques: passou de certo ponto, o banco fecha o caixa. No modelo, se todos sabem disso, ninguém tem motivo para correr. Mas, na vida real, ninguém sabe quantas pessoas vão precisar do dinheiro, e quem tem uma emergência de verdade pode ficar de fora.
A segunda resposta é a garantia. Se você tem certeza de que receberá os seus R$ 145 mesmo que todos saquem, não corre. E, se ninguém corre, o banco não precisa vender nada às pressas. A garantia funciona como uma promessa que evita a própria necessidade de ser cumprida.
O preço da garantia
Se o depósito está garantido, o cliente tem menos motivo para vigiar o banco, e o banco pode correr mais risco.
Um estudo de Demirgüç-Kunt e Detragiache com 61 países, entre 1980 e 1997, concluiu que a garantia explícita tendeu a piorar a estabilidade dos bancos, principalmente onde as instituições eram fracas e a cobertura era extensa. Por isso a garantia anda junto com regulação: garantia demais sem fiscalização vira incentivo ao risco; garantia de menos deixa o medo correr solto.
E no Brasil
No Brasil, essa peça é o Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. Ele garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado, com teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos, e nem todo investimento entra: fundos de investimento, por exemplo, não têm essa garantia. O estudo de 1983 argumentava que a garantia deveria ser do governo, que pode cobrar impostos; o FGC é uma associação privada, mantida pelas próprias instituições.
Há também a Lei 7.492/1986, sobre crimes contra o sistema financeiro. O artigo 3º pune quem divulga informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira, com pena de dois a seis anos de reclusão e multa. Sacar o seu dinheiro não é crime; espalhar informação falsa de que um banco vai quebrar pode ser. Isso não é aconselhamento jurídico, só o que a lei diz.
Fechando a conta
Fontes
- DIAMOND, D.; DYBVIG, P. Bank Runs, Deposit Insurance, and Liquidity. Journal of Political Economy, 91(3), p. 401–419, 1983.
- IYER, R.; PURI, M. Understanding Bank Runs. American Economic Review, 102(4), p. 1414–1445, 2012.
- GARRATT, R.; KEISTER, T. Bank runs as coordination failures. Journal of Economic Behavior & Organization, 71, p. 300–317, 2009.
- KELLY, M.; Ó GRÁDA, C. Market Contagion. American Economic Review, 90(5), 2000.
- COOKSON, J. A. et al. Social Media as a Bank Run Catalyst. Journal of Financial Economics.
- SHIN, H. S. Reflections on Northern Rock. Journal of Economic Perspectives, 23(1), p. 101–119, 2009.
- CORREIA, S.; LUCK, S.; VERNER, E. Failing Banks (2025) e Bank Failures: The Roles of Solvency and Liquidity (2026).
- BERNANKE, B. Nonmonetary Effects of the Financial Crisis in the Propagation of the Great Depression. American Economic Review, 73(3), p. 257–276, 1983.
- DEMIRGÜÇ-KUNT, A.; DETRAGIACHE, E. Does Deposit Insurance Increase Banking System Stability? FMI, WP/00/3, 2000.
- LUCIA, J. (1985) e O'BRIEN, A. (1992), sobre o Bank of United States.
- MANKIW, N. G. Introdução à Economia. WILLIAMSON, S. Macroeconomics.
- Federal Reserve, depoimento de Michael Barr, 28/3/2023. Prêmio Nobel de Economia 2022, comunicado.