assimetria
Explicando a economia · Assimetria de informação

Por que seu carro perde valor ao sair da loja?

O carro é o mesmo, o motor é o mesmo, e mesmo assim o preço cai logo depois da compra. Um economista deu uma explicação que três revistas recusaram, que rendeu um Nobel e que deu nome a este canal: a assimetria de informação.

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Resposta curta

Quem vende um carro usado sabe se ele é bom ou se dá problema; quem compra não sabe. Na dúvida, o comprador paga pela média, o dono do carro bom desiste de vender e sobram os ruins, os "limões". George Akerlof mostrou em 1970 que essa assimetria de informação gera seleção adversa e pode encolher um mercado inteiro. Por isso um carro quase novo já vale menos: o comprador não sabe se ele é bom ou um limão.

Um problema que começou no desemprego

Em setembro de 1966, aos 26 anos, com o doutorado recém-terminado, George Akerlof começava a dar aula na Califórnia. O problema dele não era carro: era desemprego. Tentando entender as fases de alta e de baixa da economia, o chamado ciclo econômico, ele olhou para um fator importante na época: a venda de carros novos, que variava demais.

Daí veio a pergunta: por que as pessoas compram carro novo em vez de usado? A resposta dele foi a desconfiança.

A dúvida do comprador

Você acha um carro usado, bonito, com bom preço. E vem a dúvida: se esse carro é tão bom, por que o dono quer vender? A pergunta é muito mais velha que o carro: negociante de cavalo convive com ela há séculos.

Por trás dessa dúvida há um desequilíbrio. Depois de um tempo com o carro, o dono sabe se ele é bom ou se dá problema. Você, que vai comprar, não sabe. Nos Estados Unidos, carro que dá defeito tem apelido: lemon, limão.

Assimetria de informaçãoQuando um lado de uma negociação sabe mais do que o outro sobre o que está sendo negociado.

O pátio de carros

Num exemplo com números redondos: um pátio em que os carros parecem iguais. Metade é boa e vale R$ 50 mil. Metade é limão e vale R$ 25 mil. Você não consegue diferenciar. Quanto oferece?

oferta pela média: (50.000 + 25.000) ÷ 2 = R$ 37.500

Agora olhe do lado de quem vende. Quem tem o limão adora: recebe R$ 37.500 por um carro de R$ 25 mil. Quem tem o carro bom teria de entregar um carro de R$ 50 mil por R$ 37.500. Então desiste e fica com o carro.

Mas você não é bobo. Se os bons saem, quem sobra? Limões. Você percebe e baixa a oferta para R$ 25 mil. O carro bom sumiu do pátio, mesmo havendo gente disposta a pagar por ele. Faltou só uma coisa: informação.

Seleção adversaQuando um preço único, pago pela média, acaba afastando os melhores produtos e atraindo os piores.

O mercado que desaparece

Akerlof foi além. Com muitos níveis de qualidade, o ruim expulsa o não tão ruim, que expulsa o médio, que expulsa o bom. No exemplo extremo do artigo, nenhum carro é vendido, a preço nenhum, mesmo havendo gente disposta a vender e a comprar.

Isso é o modelo. No mundo real, o mercado de usados existe, mas o problema aparece: um estudo com carros registrados na Suíça, de Emons e Sheldon, encontrou evidência de que os vendedores tendem a oferecer os carros piores.

A resposta à pergunta

Quando alguém tenta vender um carro quase novo, o comprador não sabe se aquilo é um carro bom ou um limão. Na dúvida, paga menos. E quem tem um carro bom fica preso: não consegue receber o que ele vale. Não é só o cheiro de novo que vai embora. É a confiança.

As três recusas

Em junho de 1967, o artigo estava pronto. Akerlof mandou para a American Economic Review e foi passar um ano na Índia. Lá chegou a resposta: recusado, porque a revista não publicava artigos sobre assuntos tão triviais. A Review of Economic Studies deu a mesma resposta.

A terceira recusa, do Journal of Political Economy, veio com dois pareceres. Um argumentava que ovos de categorias diferentes são separados e vendidos, e que, se o artigo estivesse certo, nada poderia ser negociado. Akerlof diz que isso exagerava o que ele afirmava. E, segundo ele, veio o golpe final: se o artigo estivesse certo, a economia seria diferente.

Ele mandou então para o Quarterly Journal of Economics, que aceitou. O artigo saiu em agosto de 1970, mais de três anos depois de ficar pronto.

Em seu ensaio de 2003, o próprio Akerlof diz que o artigo rompia bem menos com a economia da época do que pode parecer, e agradece até a quem o recusou. A explicação dele é que a economia funciona como um microscópio: foca muito em algumas coisas, principalmente em preço, e desvia a atenção de outras.

O Nobel

Em 1973, numa viagem à Inglaterra, ele se surpreendeu ao descobrir que o artigo era lido com entusiasmo. Em 2001, dividiu o Nobel de economia com Michael Spence e Joseph Stiglitz, pelas análises de mercados com informação assimétrica.

Há uma ironia. No fim do artigo, ao listar coisas que funcionam como certificado de qualidade, ele cita o diploma, o doutorado e até o Prêmio Nobel. Trinta e um anos depois, recebeu o dele.

Nunca foi só sobre carros

No artigo, Akerlof diz que escolheu o mercado de carros por ser concreto e fácil de entender, não por ser o mais importante. A lógica vale onde a qualidade é difícil de enxergar.

Seguro-saúde: ele pergunta por que pessoas com mais de 65 anos tinham tanta dificuldade de contratar um, e por que o preço não simplesmente subia para compensar o risco. Porque, quando o preço sobe, fica quem tem mais certeza de que vai precisar; o grupo de clientes piora, o preço teria de subir de novo, e pode não sobrar venda nenhuma. Numa pesquisa de 1956 citada no artigo, a cobertura hospitalar caía de 63% entre quem tinha de 45 a 54 anos para 31% acima dos 65.

Crédito: na Índia descrita por ele, os grandes bancos cobravam 6%, 8%, 10%, e o agiota da vila, 15%, 25% e até 50%. Por que ninguém pegava dinheiro barato no banco e emprestava mais barato que o agiota? Porque o agiota conhece o cliente. O intermediário de fora tende a atrair todos os limões e ter prejuízo.

O custo da desonestidade

Daí sai uma ideia poderosa: o custo da desonestidade não é só o prejuízo de quem foi enganado. É também o negócio honesto que deixa de existir.

E muita coisa à nossa volta ganha sentido. A garantia passa o risco para o vendedor. A marca dá ao cliente um jeito de punir: é só parar de comprar. A rede de restaurantes aparece na estrada, onde o cliente raramente é da região. Licença de médico, de advogado e diploma funcionam como certificados. Tudo isso existe para reduzir a mesma dúvida.

E o nome deste canal

O estudo de Akerlof fala de assimetria de informação. Com a economia acontece algo parecido: quem estudou entende por que os juros sobem, por que o crédito some, por que a inflação come o salário; quem não estudou paga a conta sem saber por quê. O assimetria existe para diminuir essa distância. É também por isso que o símbolo é uma moeda partida: de um lado, o valor que o mercado enxerga; um degrau abaixo, o limão, o que estava escondido.

Fechando a conta

1. O comprador não enxerga a qualidade, então paga pela média.
2. O dono do carro bom sai; sobram os limões, e o mercado encolhe.
3. Garantia, marca, reputação e certificados existem para reduzir essa dúvida.
O custo da desonestidade inclui o negócio honesto que deixa de existir.

Fontes

  • AKERLOF, G. A. The Market for "Lemons": Quality Uncertainty and the Market Mechanism. Quarterly Journal of Economics, 84(3), p. 488–500, 1970.
  • AKERLOF, G. A. Writing "The Market for 'Lemons'": A Personal and Interpretive Essay. Nobel Prize, 2003.
  • REAL ACADEMIA SUECA DE CIÊNCIAS. Comunicado do Prêmio de Ciências Econômicas, 2001.
  • EMONS, W.; SHELDON, G. The Market for Used Cars: New Evidence of the Lemons Phenomenon. Applied Economics, 41(22), p. 2867–2885, 2009.
  • PINDYCK, R.; RUBINFELD, D. Microeconomia. 2013.
  • NICHOLSON, W.; SNYDER, C. Microeconomic Theory. 2012.