O açúcar do Brasil era holandês?
No século XVI, o açúcar de Pernambuco atravessava o oceano até Lisboa e não parava lá: seguia para Antuérpia e depois Amsterdã. Isso diz muito sobre quem ganhava com o negócio.
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Numa cadeia de valor, o lucro fica com quem controla os elos mais difíceis de copiar. Portugal sabia plantar e moer. Os holandeses tinham a rede de venda, o segredo da refinação e o dinheiro. Para Celso Furtado, o negócio do açúcar era mais holandês que português: só a refinação valia cerca de um terço do açúcar bruto.
Cadeia de valor
O lucro fica com quem controla os elos mais difíceis de copiar.
O que Portugal sabia
Plantar e moer, Portugal sabia. Tinha testado nas ilhas do Atlântico e até fabricava equipamento de engenho.
O difícil era vender. Açúcar era quase uma novidade, e a Madeira já tinha sofrido para colocar uma produção pequena: sobrou açúcar e o preço caiu no fim do século XV.
O que os holandeses tinham
Os holandeses eram os únicos com rede comercial para criar um mercado grande, do Báltico à França e à Inglaterra.
A refinação era segredo industrial. Veneza ainda proibia exportar equipamento de refinar em 1612. Antuérpia tinha 13 refinarias em 1550 e 19 em 1556; depois o centro passou para Amsterdã.
E havia o dinheiro. Capital holandês financiou a refinação, o comércio e, tudo indica, os próprios engenhos aqui e a compra de pessoas escravizadas.
A conclusão de Furtado
Juntando tudo, Celso Furtado concluiu que, com transporte, refino e venda na mão deles, o negócio do açúcar era mais holandês que português. Só o lucro da refinação chegava a mais ou menos um terço do valor do açúcar bruto.
A pista do ritmo
A produção daqui podia crescer muito mais rápido, mas só crescia o tanto que o mercado comprava. Quem decidia o ritmo era quem vendia, não quem plantava.
Tanto que, quando os holandeses brigaram com Portugal, invadiram justamente Pernambuco. E quando foram expulsos, levaram o negócio inteiro para o Caribe.
Fechando a conta
Fontes
- FURTADO, C. Formação Econômica do Brasil. Caps. II, VI e VIII.
- SCHWARTZ, S. B. Segredos Internos. Caps. 1 e 7.