Por que o Brasil só podia vender para Portugal?
Em 1785, uma lei mandou fechar as fábricas de tecido do Brasil. Só podia sobrar pano grosso de algodão. Por que um rei proibiria a própria colônia de produzir? Porque o sistema dava lucro duas vezes.
Toque no vídeo para assistir aqui mesmo.
Pelo exclusivo metropolitano, a colônia só podia comerciar com Portugal. Sem concorrência, o comerciante do reino comprava barato o açúcar daqui e vendia caro na Europa; na volta, trazia produtos europeus e vendia caro na colônia. Se a colônia produzisse o próprio tecido, essa segunda ponta sumia. Por isso a proibição.
O exclusivo
A primeira ponta
O senhor de engenho só podia vender o açúcar para o comerciante do reino. Sem outro comprador, o comerciante empurrava o preço para baixo, até perto do custo de produzir. Na Europa, esse mesmo comerciante era o único que tinha o açúcar do Brasil para vender, e revendia pelo preço de lá, bem mais alto.
A segunda ponta
Na volta, o navio trazia tecido, vinho, ferramenta. Comprados pelo preço da Europa e revendidos aqui o mais caro possível, porque também ninguém mais podia vender.
O resultado era renda saindo da colônia e se juntando na mão dos comerciantes do reino. Foi assim que o historiador Fernando Novais explicou o sistema colonial: um mecanismo de transferência de renda da colônia para a metrópole.
A lei de 1785
Agora o alvará de 1785 faz sentido. Se a colônia fizesse o próprio tecido, a segunda ponta sumia. O mesmo valia para o sal, que era monopólio da Coroa: a produção daqui era perseguida para proteger a de Portugal.
O furo
Portugal estava empobrecido, e a marinha mercante dele não dava conta de abastecer o Brasil. O resultado foi um contrabando escandaloso, e tolerado.
Uma interpretação, não a única
Nem todo historiador põe tanto peso nesse mecanismo. Caio Prado Júnior, por exemplo, dava mais importância ao fato de a colônia existir para produzir para fora. Mas as duas leituras concordam num ponto: o comércio era amarrado em Portugal.
O fim
O sistema caiu em 1808, quando a corte portuguesa fugiu para o Brasil e os portos foram abertos. No mesmo ano, a proibição das fábricas de 1785 foi revogada.
Fechando a conta
Fontes
- GREMAUD, A. P.; SAES, F. A. M.; TONETO JR., R. Formação Econômica do Brasil. Cap. 1 (sobre Fernando Novais).
- PRADO JR., C. História Econômica do Brasil. Caps. "Súmula geral econômica no fim da era colonial" e "Libertação econômica".
- PRADO JR., C. Formação do Brasil Contemporâneo (alvará de 1785).
- COSTA, E. V. Da Monarquia à República.