O Nordeste do açúcar era rico? Rico para quem?
Celso Furtado fez uma conta curiosa: por volta de 1600, a renda por habitante europeu do Nordeste açucareiro era maior que a da Europa. Mas renda por habitante esconde quem fica com o dinheiro.
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Quase nada da renda do açúcar saía do engenho: transporte, assalariados, bois e lenha somavam pouco mais de 3%. Pelas contas de Furtado, pelo menos 90% ficava com os donos de engenho e de canavial, e o trabalho era de pessoas escravizadas, sem salário. O dinheiro virava luxo importado ou ia para comerciantes de fora. Por isso a riqueza não circulava: era concentração de renda.
Média alta não é gente rica
Imagine dez pessoas e cem reais. Se uma fica com noventa, a média dá dez para cada, mas nove passam aperto.
O Nordeste por volta de 1600
Eram uns 120 engenhos, uns 20 mil africanos escravizados e, no máximo, 30 mil habitantes de origem europeia. Furtado calcula a renda por habitante europeu, e ela é alta. A pergunta é para onde ia.
Quanto saía do engenho
A conclusão de Furtado: pelo menos 90% da renda ficava com os donos de engenho e de canavial. E a maior parte do trabalho era de pessoas escravizadas, que não recebiam nada.
O que os senhores faziam com o dinheiro
Boa parte virava luxo importado: vinho, azeite, seda. Em 1639, no Pernambuco holandês, as importações passavam de 800 mil libras, contra 1,2 milhão de açúcar exportado.
Ainda assim sobrava tanto que dava para dobrar a capacidade de produção a cada dois anos. Não dobrava porque o mercado lá fora não comprava tudo isso.
E parte do lucro nem era daqui. Furtado suspeita que muito capital dos engenhos pertencia a comerciantes de fora: renda gerada aqui, embolsada lá.
Por que a riqueza não se espalhava
Sem salário para quem trabalhava e com o luxo vindo de fora, quase nada circulava dentro da colônia para criar outros negócios. Não havia mercado interno: quem produzia não comprava, e quem comprava comprava lá fora.
Fechando a conta
Fontes
- FURTADO, C. Formação Econômica do Brasil. Cap. VIII e notas 50–54.