Como a Alemanha chegou a preços um bilhão de vezes mais altos?
Em 1923, um deputado americano trocou 7 dólares por 4 bilhões de marcos alemães e gastou 1,5 bilhão num único jantar. Como um dos países mais ricos do mundo chegou nisso, e o que isso tem a ver com o real?
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Depois da Primeira Guerra, a Alemanha tinha indenizações gigantescas a pagar e cobriu a conta emitindo dinheiro. Com os preços subindo rápido, ninguém guardava moeda, os impostos chegavam sem valor e o governo emitia ainda mais. Em 1923, os preços estavam um bilhão de vezes acima dos de antes da guerra. A hiperinflação só parou quando o governo equilibrou as contas, parou de emitir e as pessoas voltaram a confiar na moeda.
Versalhes
Tudo começa em 1919. A Alemanha perde a Primeira Guerra e, no Tratado de Versalhes, é condenada a pagar indenizações gigantescas. O economista John Maynard Keynes, que participou da negociação, avisou que aquilo destruiria a economia alemã. Ninguém ouviu.
Para pagar, a Alemanha precisava exportar, mas os outros países fecharam as portas. Sem dinheiro entrando, o governo foi se endividando e cobrindo a conta com dinheiro novo.
A espiral
O mecanismo de qualquer hiperinflação é parecido. Com os preços subindo rápido, ninguém guarda dinheiro: você recebe o salário e gasta no mesmo dia, e essa corrida para comprar empurra os preços ainda mais para cima.
Quem deve imposto atrasa de propósito, para pagar depois com um dinheiro que já não vale nada. O governo arrecada menos, emite mais, e a espiral gira cada vez mais rápido.
1923
Em 1923, a Alemanha atrasa os pagamentos e a França invade o Ruhr, o coração industrial do país. A produção desaba, e a moeda vai junto.
Comparando com os preços de antes da guerra, na Áustria eles se multiplicaram 14 mil vezes; na Polônia, 2,5 milhões de vezes. Na Alemanha, um bilhão de vezes. Havia gente indo buscar dinheiro com carrinho de mão, e a Bauhaus, a famosa escola de design, chegou a desenhar cédulas de um e de dois milhões de marcos.
O que fez parar
No fim de 1923 nasce uma moeda nova, o rentenmark, apresentada como garantida pelas terras alemãs. Mas essa garantia era muito mais simbólica do que real.
O que funcionou foi outra coisa: o governo equilibrou as contas e parou de emitir, e as pessoas voltaram a confiar. Inflação não é só preço subindo: é a moeda perdendo a confiança de quem a usa. Recuperar essa confiança é o centro de qualquer plano que acaba com uma hiperinflação.
A ligação com o Brasil
Setenta anos depois, Gustavo Franco, economista que tinha feito o doutorado em Harvard justamente sobre as hiperinflações dos anos 1920, entrou na equipe que acabaria com a inflação brasileira.
Em 1994, o plano usou uma ideia parecida: antes de trocar a moeda, criou a URV, uma unidade de referência para as pessoas reaprenderem a confiar num preço. Em julho, ela virou o real. Em entrevista em 2019, o próprio Franco descreveu o Real como uma cópia pela metade do modelo alemão.
Fechando a conta
Fontes
- SAES, F. A. M.; SAES, A. M. História Econômica Geral. Cap. 11.
- HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos.
- EICHENGREEN, B. A Globalização do Capital.
- FRANCO, G. Entrevista à DW Brasil, 2019.