assimetria
História econômica · Plano Real e inflação inercial

Como o Plano Real acabou com a hiperinflação?

Em junho de 1994, os preços no Brasil subiram 47% num único mês. Um mês depois, a inflação mensal tinha caído para menos de 7%. Os planos anteriores, que congelaram preços, tinham dado errado. O Real fez diferente.

Toque no vídeo para assistir aqui mesmo.

Resposta curta

A inflação brasileira tinha duas pernas: o governo gastando além do que arrecadava e a indexação, que fazia a inflação de hoje repetir a de ontem. Congelar preços não atacava nenhuma das duas. O Plano Real ajustou as contas e criou a URV, uma régua de preços nova para todo mundo migrar ao mesmo tempo. Em julho de 1994, a URV virou o real.

Inflação inercial

No ano anterior ao Real, a inflação tinha passado de 2.400%. As maquininhas de remarcar preço não paravam, e o salário virava pó em semanas.

IndexaçãoCorrigir salários, aluguéis e contratos automaticamente pela inflação passada.
Inflação inercialA inflação que se repete só porque tudo está indexado à inflação anterior, mesmo sem nenhum motivo novo.

É como uma fila em que cada um empurra o da frente porque foi empurrado por trás. Para parar, todo mundo precisa parar junto, e ninguém quer ser o primeiro.

Os planos que falharam

Os planos dos anos 1980 tentaram parar na marra. O Cruzado, em 1986, congelou os preços por decreto. Mas o governo continuou gastando, faltou produto nas prateleiras, e quando o congelamento caiu, a inflação voltou mais forte.

A ideia de 1985

Em 1985, dois economistas da PUC-Rio, Pérsio Arida e André Lara Resende, propuseram outra saída: uma moeda indexada circulando junto com a velha, para todo mundo migrar para uma régua nova ao mesmo tempo. Quase dez anos depois, essa ideia virou o Plano Real.

As três fases

A primeira fase foi um ajuste nas contas do governo, porque sem isso nenhuma moeda nova se sustenta.

A segunda foi a URV, a Unidade Real de Valor, criada em março de 1994. Ela não existia em papel: era uma régua, corrigida todo dia. Os salários foram convertidos para URV, e os preços foram migrando para ela. Quando quase tudo já era cotado em URV, a memória da inflação passada tinha sido apagada, sem congelar nada.

A terceira fase veio em 1º de julho de 1994: a URV virou dinheiro de verdade, o real. Cada real valia 2.750 cruzeiros reais. A inflação de julho caiu para 6,8%, e seguiu caindo nos meses seguintes.

A ligação com a Alemanha

Gustavo Franco, um dos economistas do plano, estudou as hiperinflações europeias dos anos 1920. Ele mostrou que boa parte do déficit vinha da própria inflação: o imposto chegava aos cofres já sem valor. Parar a inflação ajudava a fechar as contas, e fechar as contas ajudava a parar a inflação.

Fechando a conta

1. A inflação tinha duas pernas: déficit do governo e indexação.
2. Congelar preços não atacava nenhuma das duas; o Cruzado falhou por isso.
3. O Real ajustou as contas e criou uma régua nova para todos migrarem juntos.
O que mais pesou foi a régua nova, para todo mundo ao mesmo tempo.

Fontes

  • GIAMBIAGI, F. et al. Economia Brasileira Contemporânea. 2011. Cap. 6.
  • ABREU, M. P. (org.). A Ordem do Progresso. 2014.
  • ARIDA, P.; LARA-RESENDE, A. Inertial inflation and monetary reform in Brazil. Texto para Discussão 85, PUC-Rio, 1985.
  • FRANCO, G. Fiscal reforms and stabilisation: four hyperinflation cases examined. Economic Journal, 1990.
  • IBGE (IPCA) e Banco Central do Brasil.